Para tornar possível o que parecia impossível, este professor não poupa esforços e, sem perder tempo, mete as pernas ao caminho. Quando os alunos não vão até à escola, é ele quem vai aos bairros onde habitam bater-lhes à porta. Pode ir uma, duas ou três vezes, as que forem necessárias, para saber qual a razão do absentismo e, sobretudo, como se pode resolver.
Naquela que é considerada a escola “mais africana” da Europa, com uma percentagem de alunos originários dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) que ultrapassa os 75 por cento, a realidade é marcada por uma elevada taxa de abandono e de insucesso escolar, em grande parte reflexo de dificuldades socioeconómicas.
Com mais de 25 por cento da população escolar a habitar em bairros degradados, como a Cova da Moura, o Bairro do Zambujal, o Bairro 6 de Maio, o Bairro da Estrada Militar e o Casal de Santa Filomena, esta escola teve de encontrar uma solução para tentar dar resposta aos problemas com que se debatia.
José Rocheta, a quem, há mais de 10 anos, foi atribuída a missão de fazer a ponte entre a escola e os bairros onde vivem os alunos, é a face visível dessa aproximação, contribuindo com o seu tempo, determinação e também teimosia para encontrar soluções para os muitos problemas com que se defrontam os jovens.
Os problemas podem ser tantos e tão variados como falta de documentação, dor de dentes, gravidez na adolescência, criminalidade, delinquência, falta de dinheiro para comprar o passe social ou até mesmo não ter roupa apresentável para ir fazer o estágio profissional.
Conforme o problema, assim a solução: o seu papel pode consistir em ajudar as famílias nas tarefas necessárias para proceder à legalização, em arranjar uma consulta no dentista, ou ainda em ir comprar roupa ou sapatos para os jovens se apresentarem no estágio, chegando a adiantar do seu bolso a quantia necessária para pagar as despesas.
Sentido prático e generosidade é o que não falta a este docente para quem, com estes alunos, “não basta ser apenas um professor”. Nas suas palavras, “tem de ser também pai, irmão, tio”, enfim, “um familiar que seja, antes de tudo o mais, capaz de os ouvir e de perceber qual é o problema”.
E, como os problemas não escolhem hora nem dia, é necessário um grande empenho para resolver as questões quando estas surgem. Tal como reconhecem os colegas, este professor tem uma “grande disponibilidade”, que inclui “acompanhar os alunos a qualquer hora ou dia ou da semana, nomeadamente aos sábados e aos domingos”.
Mas a resposta para trazer estes alunos de volta ao sistema de ensino passa também pela própria escola, que teve de se reestruturar para ir ao encontro das expectativas e das necessidades dos jovens.
A diversificação da oferta educativa, com a aposta no ensino profissionalizante, foi a forma encontrada para motivar os alunos a permanecerem na escola, concluindo uma formação que lhes conferisse uma certificação escolar e profissional.
Neste âmbito, José Rocheta passou a leccionar no Curso Profissional de Restauração e no Curso de Educação e Formação (CEF) de Serviço de Mesa, que também coordena. Enquanto coordenador do CEF, realiza o acompanhamento dos alunos nos locais de estágio, em diversos restaurantes situados em Lisboa, Cascais e Loures.
Para tal, desloca-se aos diversos restaurantes, à hora de jantar, para verificar se está tudo a correr bem, incentivando os alunos a darem o seu melhor. Na sua opinião, a formação em contexto de trabalho, no caso destes jovens, é fundamental não só para a aprendizagem de uma determinada profissão, mas também para afastar os alunos de comportamentos de risco, mantendo-os ocupados e dando-lhes rotinas estruturantes.
São as soluções encontradas por uma escola com vocação humanista, onde se tenta encontrar respostas concretas para os problemas dos alunos. Há 21 anos a leccionar neste estabelecimento, José Rocheta conta com o apoio do conselho executivo e de um corpo docente estável, composto por professores que, apesar das muitas dificuldades do meio, desejam permanecer na escola e fazem de cada dia de trabalho uma luta diária por manter os jovens no sistema de ensino.
“Quem gosta... gosta. E quem gosta fica” – é assim que José Biscaia, presidente do conselho executivo, explica a estabilidade do corpo docente, que conta com professores efectivos há mais de duas décadas. “Quando se gosta, é apaixonante trabalhar todos os dias com estes alunos e tentar dar-lhes condições para que permaneçam na escola.”
Percurso académico
– Curso complementar de Mecanotecnia, na Escola Secundária Marquês de Pombal, em Lisboa (1986)
– Curso de Complemento de Formação para professores dos 12.os grupos, promovido pelo Ministério da Educação (1986)
– Profissionalização em exercício no 12.º grupo-A, na Faculdade de Ciências da Universidade Clássica de Lisboa (1992)Percurso profissional
– Início da actividade docente (1981)
– Professor de Educação Tecnológica na Escola EB 2, 3 com Ensino Secundário Dr. Azevedo Neves (desde 1987). Actualmente, lecciona também no Curso Profissional de Restauração e no Curso de Educação e Formação (CEF) de Serviço de Mesa, que também coordenaOutras experiências profissionais
- Trabalho no âmbito do Gabinete de Acompanhamento Pedagógico (GAP), com a missão de fazer a ponte entre a escola e os bairros onde vivem os alunos (desde 1996). Coordenou o GAP entre 2000 e 2005

