Entra dentro de um livro e transforma-se numa das personagens principais. Depois, já de dentro da obra literária, chama os alunos e convida-os a entrar. Não há como recusar um convite destes, para habitar dentro de um livro, povoando-o de personagens.
E os alunos entram, quase sem darem por isso, nos volumes de leitura obrigatória, na disciplina de Português do ensino secundário, pela mão do professor Afonso Rema, que conclui, neste ano lectivo, uma carreira de mais de três décadas, ao longo das quais viajou com os estudantes, não só nas páginas dos livros, mas também nos cenários onde se moviam os escritores.
Da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves, em Valadares, partia com os estudantes, em visitas de estudo, rumo a Santarém, refazendo o percurso de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. S. Miguel de Seide era o pano de fundo para o enredo de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Sintra era o destino escolhido para percorrer a trama de Os Maias, de Eça de Queirós. Já Lisboa era a cidade eleita para seguir a pista de Fernando Pessoa, descobrindo, também, os seus heterónimos.
Essas viagens pelos cenários das histórias, que fascinavam os alunos, funcionavam como verdadeiras facilitadoras da leitura, contribuindo para o virar das páginas dos livros, tal como recordam os alunos, para os quais, aos 15 ou 16 anos, os livros de leitura obrigatória começavam por parecer pouco apelativos. Começavam, é bem verdade, mas depois, contagiados com o entusiasmo do professor, o que é certo é que os estudantes acabavam por entrar nos livros e por os ler do princípio ao fim.
O segredo talvez seja muito simples, tal como admite Afonso Rema. Talvez até nem haja mistério algum. E, se o há, reside certamente no gosto que o próprio professor tem pela leitura, nomeadamente pela literatura portuguesa. Só se pode transmitir um gosto que efectivamente se tem. E este professor gosta de ler não só as obras dos escritores como também livros sobre os homens que havia por detrás dos escritores.
Com um verdadeiro talento, contava muitas, muitas histórias aos alunos, contribuindo para os ajudar a entrar nos livros. Que Camilo escrevia até altas horas da madrugada, no lado oposto do quarto onde dormia com a mulher, Ana Plácido. Que Eça de Queirós dizia que Camilo era um camelo com i. Que Fernando Pessoa batia com a cabeça no candeeiro antes de entrar em casa, onde a mãe e a irmã o esperavam para almoçar.
Este gosto pela leitura das obras traduzia-se nos resultados escolares dos alunos, tanto na avaliação interna quanto na externa. De tal forma, que, em 2004, os seus 28 alunos de Português A obtiveram a mais elevada média da disciplina, mais exactamente 15,8, entre escolas públicas e privadas.
Na opinião do professor, para esses bons resultados teve grande peso o facto de ter acompanhado esses alunos durante três anos seguidos, do 10.º ao 12.º ano, o que considera uma oportunidade privilegiada para desenvolver um trabalho consistente.
Mas, segundo garantem os estudantes, não se trata apenas uma questão de trabalho, mas também de relação e de exemplo. Ao nível do relacionamento, consideram este professor como um amigo, que permite a proximidade sem nunca deixar de impor o respeito.
O respeito, a admiração e o afecto que os jovens têm pelo professor estão estreitamente relacionado com o exemplo que constitui para os alunos. Com um comportamento eticamente irrepreensível, dá-se como modelo a seguir.
Antes de fazer qualquer exigência aos alunos, este professor começava por ser exigente consigo próprio. Se pretendia exigir trabalho de casa, tinha de ser o primeiro a cumprir a sua parte. Por esse motivo, fazia questão de entregar os testes na aula seguinte àquela em que eram realizados, sem nunca falhar, nem que para tal tivesse de trabalhar até altas horas da noite. Se desejava pontualidade e assiduidade, tinha de ser o primeiro a chegar, procurando nunca faltar às aulas. E quando se tratava de estipular o horário para uma visita de estudo, costumava dizer “A partida é às 7h15, e não às 7h16”.
A justiça é outra das qualidades que lhe são reconhecidas. A propósito, recorda uma aluna o dia em que tentou vender uma rifa ao professor. Ele respondeu-lhe que sim, que lha comprava, mas que também compraria a todos os colegas, porque aquilo que fazia por um aluno fazia por todos.
Foi por tudo aquilo que ensinou, mas também pelas qualidades humanas e pelos valores transmitidos, que Afonso Rema marcou as gerações de estudantes que lhe passaram pelas mãos, até ao ano lectivo de 2007/2008. São os alunos que o dizem. E são unânimes.
Percurso académico
– Licenciatura em Filologia Românica, na Universidade do Porto (1976)
Percurso profissional
– Início da actividade docente (1974)
– Professor na Escola Secundária com 3.º Ciclo Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves (desde 1981)Outras experiências profissionais
– Autor de manuais escolares para a disciplina de Francês, do ensino secundário (1983 e 1997)
– Coordenador do secretariado de exames
– Vice-presidente do Conselho Directivo da Escola Secundária com 3.º Ciclo Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves (de 1985 a 1987)

